Um conto do natal orleanense

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Naquele natal Padre Afonso Vergano, sentiu no coração que alguma coisa ruim iria lhe acontecer. Não imaginava que seria baleado em seguida e aquele seria seu último natal em Orleans… Naquela missa do galo, apurou o sermão, pulou alguma reza, desejou feliz natal e deu a bênção final, liberando os fiéis ansiosos para retornarem pra casa e desfrutarem a ceia antes da meia-noite. No final da missa a sacristia lotou de gente para desejar votos de boas festas e entregar presentes. Camisa, um par de sapato, meias, um livro e outros mimos que se oferta a um homem de Deus. No final, todos foram embora e o padre se viu sozinho. Inteiramente só na noite de lua iluminada apenas com as velas do presépio montado na praça. A solidão bateu forte apertando o peito e deixando o coração miúdo. E se tivesse optado por casar? Não era melhor estar com a família? Agora, perdido na noite escura levava na mala de paramentos somente uma garrafa de vinho, um pão de rala e um frango assado que havia ganho dos paroquianos. Ninguém teve generosidade de convidá-lo à ceia. A rua estava linda naquele tempo que não existia energia elétrica… Uma orquestra de vaga-lumes azuis contornava os canteiros. Parecia até uma toalha de renda estendida na praça. Visão celestial. Tilinha trazia os olhos inchados do choro copioso e sufocado. Chorava porque fora abandonada pelo marido e esquecida pelo filho que se envergonhava da mãe prostituta. Era condenada pela sociedade. Confusa, teve raiva de Deus e dos fregueses naquela noite de natal. Viu o padre e o padre enxergou-a. Caminharam em silêncio, rumo a casa paroquial. Quando conversaram o padre adiantou que não a trouxera ali para sexo. Precisava de companhia. Perguntou se poderiam rezar juntos e compartir a ceia. Tilinha sentou na cama, e desabou chorando de alívio, um choro amoroso, quase de alegria. Confessou-se. Conversaram dos natais antigos, do presépio que a família armava no cantinho da casa, do galo engordado para a ocasião, do padre que não ia naquelas lonjuras mas faziam lindas orações em família no interior. Abriu o Evangelho e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus na estrebaria, e da luta renhida que depois veio a estabelecer contra os fariseus defendendo prostituta. Explicou que Madalena esteva na última ceia ao lado dos apóstolos. Após a comunhão, pegou dois copos, encheu-os de vinho e partiu o frango repartindo o pão. O dia clareava e enquanto padre e prostituta conversavam sobre suas vidas e das coisas boas dos tempos da roça. Pouco tempo depois padre Afonso foi baleado quando retornava numa viagem de trem do Tubarão. Uma medalhinha que usava no bolso esquerdo da camisa, milagrosamente salvou aquele homem de Deus. Em seu diário foi encontrado depois, estava escrito que depois daquela ceia de natal, a prostituta procurou o padre em segredo lhe dando a medalha de São Sebastião, pedindo ajoelhada (fazendo o padre jurar) que jamais deixaria de usar aquele presente… Feliz natal gente!!!

Por: Assessor comunicação da Prefeitura Municipal de Orleans Robson Lunardi

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