A praga de gafanhotos é um aviso – e a notícia não é boa

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Uma verdadeira praga de gafanhotos, destas que podiam estar na Bíblia, vêm assolando plantações no leste da África, algumas partes do Oriente Médio e sul da Ásia, ameaçando a segurança alimentar de 10% da população mundial.
Aqui, do nosso lado do mundo, a situação pode ficar igualmente tensa. A Argentina luta hoje contra uma nuvem de gafanhotos que já se espalhou para o Paraguai, e pode alcançar o Brasil e o Uruguai também.
Considerada a praga migratória mais perigosa do planeta, especialistas creem que o fenômeno traz uma mensagem de alerta preocupante: a de que estamos destruindo o planeta.
Do início da Era Cristã até hoje
Você já deve ter ouvido falar das dez pragas encontradas na Bíblia, sendo a oitava delas a destruição de árvores e campos por nuvens de gafanhotos.
Nos registros do historiador romano Plínio, o Velho (23-79), 800 mil pessoas morreram de fome por causa desses insetos na região que hoje engloba Líbia, Argélia e Tunísia.
E não foram só os primeiros anos da chamada Era Cristã ou Era Comum que sofreram com essa praga.
Desde o fim do século 19 existem registros de infestações similares no sul do Brasil. Um dos casos mais emblemáticos foi o de uma nuvem de gafanhotos tão densa que escureceu o dia em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
O evento que observamos hoje na África, em uma área que engloba o Quênia, atravessa a Etiópia e o Iêmen e chega até partes do norte da Índia, começou a tomar forma ano passado, graças a um clima cada vez mais quente e úmido. Em 2019, os grupos de gafanhotos já contabilizavam bilhões. Em abril deste ano, atingiram a casa dos trilhões. A terceira geração dessa praga bíblica deve entrar em ação esse mês, em números ainda maiores.
Enquanto essa região batalha contra o Schistocerca gregaria, a América do Sul tenta controlar outra espécie, o gafanhoto Schistocerca cancellata, que passou por um processo natural no qual deixou de ser solitário e passou a viver coletivamente. No momento, os especialistas suspeitam que esse acontecimento também esteja ligado às mudanças climáticas.
Um grito da natureza
Não há como negar que a destruição das plantações causada pelas nuvens de gafanhotos gera preocupações econômicas e de saúde horríveis, como ondas de fome.
Infelizmente, há ainda muito mais que temer. Segundo o entomologista Dino Martins, que trabalha no Centro de Pesquisa Mpala, no norte do Quênia, a praga é mesmo uma espécie de aviso, só que não bíblico, e sim da natureza.
“Por mais aterrorizantes e dramáticas que [as nuvens de gafanhoto] sejam, há uma mensagem mais profunda: a de que estamos mudando o ambiente”, afirmou ao Harvard Gazette.
Martins não tem dúvidas de que a degradação ambiental local, o excesso de pastoreio, o desmatamento e a expansão dos desertos são fatores que estão criando as condições ideais para que cada vez mais gafanhotos se reproduzam.
Pesticidas: solucionando um problema, criando outro
Atualmente, a proliferação desses insetos é controlada com pesticidas pulverizados em plantações a partir de helicópteros.
Até agora, mais de meio milhão de hectares de terra na região do leste da África foram tratados com pesticidas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, isso poupou colheitas suficientes para cobrir os requisitos básicos de cereais para quase 8 milhões de pessoas.
Só que essa não é exatamente uma solução adequada – ela vem com consequências para a saúde dos seres humanos e do planeta.
Por exemplo, tratar vastas extensões de terra com pesticidas é péssimo para a biodiversidade. O ecologista Bill Hansson, do Instituto Max Planck na Alemanha, alertou que se livrar dos gafanhotos pode significar exterminar outros animais no processo também, como as abelhas.
Certamente, à medida que os agricultores ficam desesperados para preservar suas colheitas, mais deles irão pulverizar essas substâncias em suas plantações indiscriminadamente.
Por: Gelson Padilha/RCNoticia
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